" ASSIM É, SE LHE PARECE..."
A primeira noção de escala da qual me recordo, tratava-se de um par de chinelos de E.V.A. de um fabricante chamado Alpargatas, cujo nome fantasia era HAVAIANAS.
Tempos antes disto, eu vivenciava uma espécie "estranha" de, digamos assim, pesadêlos pavorosos (e por um acaso, existem pesadêlos amenos?) recorrentes, não sabia definí-los, mas entre quase molhado de suor e fascinado, contava prá minha Mãe que eram como se pneus gigantescos, de trator, arredondados ( mais se parecendo com cameras de ar desses pneus ), que desciam montanha abaixo, quicando e frequentemente me atingiam, me esmagando, porém, sem me levar à morte e, certamente, sem me ferir ou causar dor.
Desses, hmmmm, "esmagamentos recorrentes", na média de um por semana, esses "pesadelos" evoluiam para um sensação de amplidão, mas de uma amplidão COLOSSAL, galática, que sería uma sensação magnífica para a sua própria existência, não fosse a minha própria existência poder contar somente com algo entre seus 10 ou 12 anos...
Oras, TUDO o que não lhe é familiar, não somente é o estranho, mas o inaceitável, pelo menos, de chôfre...
Afinal, somos meros macacos pelados recobertos com um finíssimo verniz cultural, milhões e milhões de anos, nômades absolutos, vagando pelo planeta, prá nos civilizarmos, por assim dizer, somente nos últimos nanossegundos de nossa existência na Terra.
O fato é que aquelas cenas recorrentes, quando de suas eclosões, me eram devastadoramente incompreensíveis, o que naturalmente me aterrorizava, ao ponto de gritar com notável potência e, hoje, imagino, gerando alguma (senão várias), preocupação em casa.
Décadas depois, pude ter a felicidade indizível no "decifrar" desse conjunto de pesadelos sistemáticos, recalcitrantes, confrontando-o como sendo um pré-laboratório, uma espécie de tubo-de-ensaio psíquico (e primitivo) da minha, hoje, habilidade com .... ESCALAS.
Meu próprio ofício de Arquiteto e Construtor, tratar-se-ía de um pré-requisito importante demais, prá que pensemos apenas como uma vocação ou análises similares do gênero.
Ilustrar, Pintar, Fotografar, Esculpir, Reproduzir objetos através da Maquetaria....
TUDO É ESCALA.
( e também PROPORÇÃO, como costuma me lembrar o arquiteto e meu professor de antes, Otávio Yassuo Shimba da UEL, e professor ainda de meus hojes... ).
Não fiz um tal de Crisma.
Nem uma tal de Primeira Comunhão.
De todo modo, não tenho a mínima idéia do que ambos sejam...
Mas alguns de meus amigos de classe (e de escola do GEGEDEC, o Grupo Escolar Ginásio Experimental Dr. Edmundo de Carvalho na Rua Tibério em São Paulo), parece que íam, recorrentemente como os meus piores pesadelos, numa bela igreja na Praça Cornélia, onde funcionava um interessante laguinho perfeitamente circular onde, às vezes, brincávamos indo de bicicleta Caloi Berlineta Dobrável com meus dois irmãos, Arthur e Fábio Steagall-Condé, providencialmente consertada e revisada de tempos em tempos na Casa Bérgamo Ciclistica, que funcionava à Rua Duílio, no coração da Vila Romana.
Nesse laguinho artificial de concreto, onde vou supor que alagum dia um chafariz arremessasse água nas alturas, pois ao centro tinha resquícios enferrujados de alguns encanamentos grandes, brincávamos com umas caixinhas de isopor com um furo em uma das pontas, por onde instalávamos uma bexiga, a enchíamos com a boca, soltando "lanchas quadradas" sem contrôle sobre a água limosa apostando corridas, para espanto e admiração de alguns dos transeuntes que, curiosos, puxavam papo abslutamente assombrados conosco, nos divertindo com aquela brincadeira absolutamente idiota. Ao menos, prá mim, era bem idiota.
Mas nos divertíamos e não seríam Lanchas Off-Shore com Motores em Rabeta Volvo Penta em miniaturas, rádio-controladas, que faría muito mais do que já estávamos fazendo ou seja, nos divertindo à beça...
Pois eis que numa dessas manhãs de Domingo, acho, teve o acontecido de uma missa de Sétimo Dia do nosso Professor Beozzo, que entre outras coisas legais, como ser amigo de nossa família, tinha me ensinado Xadrez em turmas de férias, em tabuleiros de damas da Xalingo (que abriam na lateral numa lingueta secreta, por onde guardavam-se as pedras em seu interior, quase um chocalho curioso e maluco, quando voce o girava lentamente) que a própria A.P.M., a associação de Pais & Mestres do GEGEDEC, providenciava alguns como empréstimo, até termos nossos próprios tabuleiros.
O Beozzo, foi um dos caras mais incríveis que eu já conheci.
Eu o entendia como um herói real, o que me fez um bem danado, por não transferir atos de culto à heroísmos fabricados ou por puro entretenimento.
Uma vez, ele desenhou num papel o que sería uma placa legal pro VW Sedan dele, Verde, com estofamento em vinil branco:
BE-0220.
ERA O SOBRENOME DELE!
De um "tour" pela Europa inteira, ele conseguiu trazer de volta na bagagem, uma MONSTRUOSA motocicleta da BMW, de motores boxer, cilindros justapostos ( como os fuscas! ), reluzentemente prateada, uma 900cc, acho.
Eu não tenho mais a precisão da perda dele, mas parece que se deu numa estrada do Paraná, uma caminhonete com um motorista imprudente, fez com que agora, eu me encontrasse com meus amigos de escola do GEGEDEC na missa, alguns me perguntando "nossa, é a primeira vez que te vejo aqui...".
Entrei, com todo mundo arrumadinho e roupa legal (eu estava fuleiríssimo, nem lembro o porque...) e o Padre iniciou rápido falando umas coisas BASTANTE sem-sentido, que ecoavam pela nave, achei meio mal-feito, um truque bobo, mas a igreja era bem legal, um misto com trem-fantasma, penteadeira-de-puta e pátio de apreensão de produtos ilegais, num ambiente velho, gelado, de extremo mau-gosto, desgraçadamente deprimente, com um homem todo fodido e ensanguentado, numa cruz e outras bizarrías inadmíssiveis, mesmo eu não tendo consciência de saber de fato que era um ambiente velho, gelado, de extremo mau-gosto, desgraçadamente deprimente, com um homem todo fodido e ensanguentado, numa cruz e outras bizarrías inadmíssiveis.
Não entendi como, mas organizaram uma fila no meio do corredor, prá gente comer a hóstia, depois que o Padre malemá lavava umas taças com um pano nojento, amassado (o desgraçado não podia lavar aquela louça depois, numa pía ?) e pude ver um conhecido segurando um incenso, sei lá, levei um susto do caralho ao vê-lo.
Chegou minha vez, comi uma pastilha MUITO da sem-vergonha, fininha, de casca de Torrone Montevergine que minha mãe trazía às vezes do Lago Azul, quando retornava de Águas da Prata, com a diferença que essa pastilha NÃO tinha o torrone dentro e ainda por cima, um gosto de cuspe.
Me senti um idiota completo, sensação que se ampliou em demasía, ao levar uma bronca de uma menina, que me dizia prá não mastigar, por quê "era o corpo de Cristo" (!!!)
Fingi temor ou algo similar e fiquei como um cretino com todo mundo fingindo temor e e respeito, bando de cretindo filhos-de-umas-putas, nem conheciam o Benedito Beozzo, o Benê, direito, porra! E estavam fazendo esse tal de MISSA ???
Como foi me ficando razoavalmente óbvio, percebi que minha vida não seria exatamente comum, depois "daquilo", que nem tinha sido meu debut no palco dos acontecimentos bizarros do que vem à ser as Religiões, no meu particularíssimo (e espero que, intransferível) Sistema de Crenças (por falta de termo melhor) mas, que foi algo marcante, Ah! Isso foi, senão, não estaría descrevendo-o.
Em algumas poucas semanas, acho que nós mesmos nos inscrevemos numa Escola Dominical numa igreja Batista na Rua Clélia, ao lado da Doceira Pólem (tinha uns doces de morango, com um creme branco dentro e um creme transparente em cima, laqueado e brilhante, que eram de CHORAR, só de ver os quatro morangos cortados ao meio em foram de pétalas esperando serem mordidos, coisa que eu fazia pensando na minha lista com 15 namoradas, 95% delas do GEGEDEC, escrita em ordem de "preferencia") mas, já nas primeiras "aulas", não sentí firmeza alguma, até por que, junto com a gente, tinha um filho-da-puta que tinha aprontado alguma coisa ruim perto de casa, que eu nem me lembrava mais o que tinha sido, mas como ninguém viu ele fazendo, lá estava o tal, fingindo inocência ou sei-lá-eu-o-que, como definir um incômodo desses, com seus 12 anos ?
Comecei a desconfiar de um imenso, um gigantesco embuste.
Mas não um embuste qualquer e sim, um muito do bem montado, prá no final, tudo terminar em nos atemorizar o máximo e fingirmos que alguém cuidava da gente o tempo todo e que não estaríamos, NUNCA, (eles queriam enfatizar sempre isso), sozinhos, como eu desconfiava que nós todos estávamos, inteiramente fodidos e dependentes SOMENTE DE NOSSOS ATOS e, pior de tudo absolutamente sozinhos entre as galáxias, fazia um bom tempinho já.
Daí, por conveniência familiar que se observaría quase em seguida, uns missionários mórmons até que bacanas foram lá em casa e, pelo fato de meu Avô Foster Noland Steagall falar inglês com a dupla, as coisas foram se construindo num aspecto curiosamente familiar com Mr. David Franklin Dodds e Mr. Ferguson.
Mas, igualmente no mormonismo, em que pese ser uma fé pioneria no quesito "família" ( coisa que só agora uma fé como a católica acordou, vode as Encíclicas, vergonhosas desde sempre, agora extinguindo o Limbo e incluindo o transito de nós, humanos, como algo divino, sei, corto meu pinto fdora, msa a proxima Encíclica, o Papa vai afirmar que teve um revelação e vai afirmar que o Google é o proprio Deus, espiritualzado, posto que intangível como são os bits...) e somente por causa disso, essencial para a vida urbana contemporânea, tirando um puritanismo inútil, tinha conceitos um pouco forçados demais, a começar pelos seus próprios membros (alguns) tão humanos quanto fosse possível serem humanos.
Não!
Não esperava encontrar demiurgos, até por que, só vim a saber o que era um DEMIURGO bem mais tarde.
Mas eu comecei a pensar muito seriamente no assunto, quando anos mais tarde, já na universidade, caiu a ficha, como se dizem.
( Caiu a ficha vem de uma gíria que fazía analogía com as máquinas de fliperamma do fabricante norte-americando Gotlieb. Às vezes, voce insería na ranhura frontal do equipamento uma ficha, parecida com "moedas" telefõnmicas que antes acionavam o tom de discagem nos orelhões, mas essa ficha não chegava no "relay" de imediato, que acionaría o início do seu jogo, aliás, quando a ficha caía, seja na hora -mais comum- ou com o retardo -mais raro- iniciava-se um show de luzes e de sons, sem contar o barulho do zeramento regressivo dos placares feitos de contadores analógicos de cinco casas decimais, só isso em sí, uma delícia de se ver e de se ouvir).
Eis que, caiu, enfim, minha ficha:
"Deus é, de longe, a melhor invenção do Homem.
Prá não dizer, seu mais bem acabado projeto de Design.
Ao contrário das escrituras, foi o Homem quem fez Deus.
Orgulhoso, o fez ainda à sua própria imagem e semelhança"
E como sempre, é tudo uma questão de ESCALA ( E proporção, certo, Sr. Shimba?...)
Muitos deuses, como aconteciam "nas Antigas", era um troço bem complicado de se gerenciar (e de se faturar...).
Os egípcios da época dos Faraós tentaram (não lembro quem, Amunothep?) unificar a bagaça, mas não deu certo por muito tempo: Vollaram rapidinho praquela caralhada de deuses, tinha prá tudo, sol, lua, noite, água, pois assim, dava prá se agradar bem mais gentes daquela época difícil, ainda mais, se voce não nascesse Faraó.
Lembro-me de minha primeira Experiência Mística.
(ou ao menos, lembro de uma que me marcou com certa profundidade)
Deu-se em Peruíbe, na travessia do Rio do Tubarão.
( Peruíbe em tupy-Gê é Rio do Tubarão).
Na orla, quando a maré estava enchente, um grupo de pessoas já tinha atravessado alí momentos antes, saindo da margem do Costão, mas uma subita onda sobe-maré me pegou no início da travessía, com minha mãe e meus irmãos na outra margem, do lado da cidade, em direção ao curioso edifício concavo-convexo (e o único na orla, consta que afundou um pouco na turfa do lagamar de 100 milhóes de anos de idade que tem por alí), o Serra dos Itatins, todos me esperando, aflitos.
O turbilhão de água salgada e fria, onde eu esperava experimentar a água doce e morna do rio, me confundiu e me deixou sem ação alguma.
Não entendia de como poderia estar sendo arrastado, sem esforço, com tamanha velocidade, mergulhado até o pescoço dentro da água turva e violenta...
... quando tive um insight, um satori, um nirvana, um clique.
( Mas a ficha só veio a cair décadas depois)
Aconteceu-me algo como:
MEU DEUS! ME AJUDA!
COMO TUDO AQUI ESTÁ GRANDE E COMO SOU PEQUENO!
SOCORRO !!!
Aliás, não existe palavar mais RIDÍCULA do que essa tal de "socorro". Primeiro, por que ela só existe em filmes ou nos quadrinhos. Ninguém tem idéia do que seja voce, precisar de gritar por isso, quando de fato, voce PRECISAR gritar por isso.
É a palavra-mãe, de todas as impotências. Única, pessoal, intransferível, a fornteira entre a sua vida e a sua morte, resumidas em uma única frase, NINGUÉM tem dúvidas do que ela significa e para que ela serve, quando convenientemente empregada, garanto-lhe....
Aliás...
Falando em "socorro"...
É algo muito, mas bem legal mesmo, quando voce estiver morrendo, ter no que pensar, especialmente se for algo como por exemplo, deus.
É o fim.
A potencial extinção definitiva de sua completa miserabilidade, desamparo e impotencia.
Prá não te dizer, desimportância, levando uma porrada como um trilho ferroviário bem no meio da tua cara e voce alí, SEM NOÇÃO DA ESCALA DAS COISAS, tornando, em nanossegundos, o insondável, infinitamente GIGANTESCO.
Transformando o inútil que voce é, alí, (sozinho e por sua própria conta.) infinitamente PEQUENO.
Daí...
.... prá alguém se aproveitar desse mecanismo perceptivo ancestral do primata, que ele usa o tempo todo prá adequar, proporcionar, calcular, lembrar, comparar (pois sem essas coisas, seríamos um chimpanzé sem pelos)....
... e organizar um sistema de crenças em volta disto, é a coisa mais fácil do planeta, que o digam as Religiões, pululando ás centenas, umas velhas como certas minas abandonadas, sem ter mais nada do que escavar.
Outras, mais hábeis, tinindo de novas, algumas delas, até funcionando pela TV ou mesmo com Pranchas de Surfe à guisa de altar de sacrifício, espero, que feito com Virgens Disponiveis, amaveis, femininas, prontas para a imediata fecundação e assim, propiciar o crescimento e multiplicidade de seus surfistas, para irmos e enchermos os mares, se bem que...
sábado, 25 de outubro de 2008
TUDO É UMA QUESTÃO DE ESCALA
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